quinta-feira, 21 de julho de 2022

Lula em encontro com a Cultura em Recife (PE): volta do Ministério da Cultura..

Ao som do frevo, em Recife, Lula reafirma compromisso com cultura

“Nós precisamos fazer uma verdadeira revolução cultural nesse país”, afirmou o presidente Lula em evento com o setor cultural, em Recife, nesta quinta-feira
 21/07/2022 17h32 - atualizado às 19h02
Ricardo Stuckert

Lula e Alckmin participam de evento cultural em Recife

Em encontro emocionante com representantes da cultura no fim da manhã de hoje, 21, em Recife (PE), com poesia, música, frevo, agradecimentos e alegria, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou seu compromisso de priorizar a cultura, num eventual novo governo, com recriação do Ministério, criação de comitês estaduais e realização de conferências anuais para que o setor decida coletivamente as políticas públicas e as diversidades regionais sejam representadas nas escolhas.

Quero criar comitês de cultura estaduais para que não haja o monopólio da cultura do Centro-Sul do país sobre o restante do território nacional. O ministério que vai cuidar da cultura vai ter que construir, junto com os 27 estados, grupos de cultura em que vão fazer conferências anuais para decidir que tipo de política a gente vai colocar em prática e fazer com que a cultura seja um instrumento de geração de riqueza nesse país”, disse, acrescentando que a cultura mobiliza muita gente, o que significa emprego sustentável e de qualidade e sustentável.

De acordo com o ex-presidente, o Ministério da Cultura tem que ser entendido não como um ministério de gasto, mas de investimento e de descoberta de pessoas extraordinárias e gente excepcional. “Eu quero fazer, não eu, nós. Nós precisamos fazer uma verdadeira revolução cultural nesse país. Não é uma revolução cultural de mandar queimar livro não, é de distribuir mais livro, de permitir acesso das nossas crianças a ter possibilidade de assistir filme, música, teatro na escola”.

Lula em Recife com setor cultural. Foto: Ricardo Stuckert

criou políticas inclusivas, como os pontos de cultura, que se mostraram eficazes e mobilizadoras de grande contingente de pessoas país afora. Contou também das experiências iniciais com a cultura, a ida ao circo, o primeiro cinema numa projeção na parede de uma padaria na periferia de São Paulo, até instituir no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC medidas de estímulo para os trabalhadores vissem e debatessem sobre filmes, e cursos de fotografia, teatro e cinema.

Em um Teatro do Parque cheio de pessoas de diferentes gerações, com grandes nomes da cultura pernambucana como os cineastas Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, que têm levado o nome de Pernambuco e do Brasil para o mundo com filmes aclamados pela crítica e pelo público, como Bacurau, Som ao redor e Aquarius, Lula falou sobre o Brasil que andou para trás com um governo que causou perdas não só para o setor cultural, mas também ouviu e disse ter aprendido muito com todas as falas.

Nomes como Sidney Rocha, João Roberto Peixe, Tita Alves, Fred 04, Maciel Salu, Bete de Oxum, Bione falaram para o ex-presidente sobre a situação do setor, destacaram a importância da construção coletiva das políticas culturais, defenderam a volta do Ministério da Cultura e das conferências nacional, agradeceram Lula e reconheceram a importância dos governos petistas para os avanços que o setor viveu nos últimos anos e que foram perdidos, após o impeachment que tirou a ex-presidenta Dilma Rousseff do poder.

Lula em evento com setor cultural em Recife. Foto: Ricardo Stuckert

Kléber Mendonça Filho – que com a visibilidade que tem em palcos internacionais, onde mostra suas produções, sempre denunciou o golpe contra o PT e os retrocessos do Brasil após a eleição de Jair Bolsonaro -, destacou a importância da cultura como representação do Brasil e disse que, em suas viagens para o exterior, ninguém entende porque o Ministério da Cultura foi extinto numa das primeiras ações do atual governo. “Pareceu ser um crime contra a própria ideia de Brasil. O Brasil é a Cultura”, relatou, acrescentando que o mais importante agora é trabalhar para que “essa fase vergonhosa do país chegue ao fim e que o pensamento democrático volte a guiar a vida dos brasileiros”.

O encontro teve clima de festa. Lula e Janja brincaram com a sombrinha símbolo do frevo, ganharam livros e camisa do “Eu acho é pouco”, tradicional bloco de carnaval de Olinda, dançaram e se emocionaram com a força da energia pernambucana expressa na vibração do teatro lotado, na música cantada por Almério e Maciel Salu, no frevo contagiante em sons e movimentos de Maestro Forró e Orquestra Popular da Bomba do Hermetério, nas poesias ditas pelos mestres de cerimônia e no depoimento de tantos que sentem saudades de um tempo que o Brasil foi feliz e melhor.

Do site lula.com.br

terça-feira, 19 de julho de 2022

Este vai ser um país generoso ou mesquinho? 

     Rodrigo Casarin 

    Cena de Stuck Rubber Baby, de Howard Cruse Imagem: Reprodução 

"Pessoalmente, não vejo como alguém nesta boa terra de Deus pode esperar que um policial mantenha a calma com os crioulos insistindo nessa cantoria e em sacudir placas perturbando todo mundo que não nasceu com pele escura, com mil reclamações pelas ruas e calçadas todo dia...

" É o que diz um dos toscos mais simbólicos de "Stuck Rubber Baby - Quando Viemos ao Mundo", HQ do estadunidense Howard Cruse que há pouco ganhou uma edição da Conrad (tradução de Dandara Palankof, letras de Lilian Mitsunaga). Estava na dúvida se valeria a pena apontar o álbum, publicado originalmente em 1995, como um clássico dos quadrinhos, mas o Festival de Angoulême deste ano facilitou a vida ao reconhecê-lo como patrimônio da arte.

De fato, não é toda hora que encontramos um gibi tão complexo quanto "Stuck Rubber Baby". Perseguições a homossexuais e a negros, alvejados por brancos, héteros e cheios de fé em Deus, são uma constante em casas, ruas e festas de um Estados Unidos da década de 1960. De um lado, bandos como a Ku Klux Klan contam com a simpatia, a conivência e o apoio das forças policiais e de certos governantes. De outro, jovens de diferentes grupos subjugados tentam fortalecer seus pontos de convergência e contornar as divergências para lutar por direitos.

De fato, não é toda hora que encontramos um gibi tão complexo quanto "Stuck Rubber Baby". Perseguições a homossexuais e a negros, alvejados por brancos, héteros e cheios de fé em Deus, são uma constante em casas, ruas e festas de um Estados Unidos da década de 1960. De um lado, bandos como a Ku Klux Klan contam com a simpatia, a conivência e o apoio das forças policiais e de certos governantes. De outro, jovens de diferentes grupos subjugados tentam fortalecer seus pontos de convergência e contornar as divergências para lutar por direitos. 


Os preconceitos institucionalizados e reproduzidos bestialmente estão em uma das camadas mais evidentes da narrativa. A dúvida entre seguir com manifestações pacíficas ou responder com violência àqueles que se sentem seguros para professar toda a sua brutalidade é outro elemento notável no trabalho de fundo autobiográfico de Howard, que se foi há três anos. Antes de vencer uma série de outros prêmios importantes com "Stuck Rubber Baby", dentre eles o Eisner, o quadrinista fundou em 1980 e editou a Gay Comix, publicação underground que durou até 1998.

No prefácio do volume, Alison Bechdel, quadrinista famosa por trabalhos como o ótimo "Fun Home", resgata uma entrevista dada por Howard ainda na década de 1990, após o lançamento de "Stuck Rubber Baby". "Este é um livro que as pessoas podem levar pra vida e revisitar para encontrar novas sutilezas, questões que são contemporâneas, mesmo que a história tenha acontecido trinta anos atrás. Ela trata de questões às quais dou muita importância: este vai ser um país generoso ou mesquinho?", dizia o autor.

Serve para os Estados Unidos de ontem. Serve para os Estados Unidos de hoje. Serve para o Brasil. As palavras escritas por Alison em 2019 olham para lá, mas, ponderando os traços locais da estupidez, cabem na realidade daqui. "Agora, quase outras três décadas após seu lançamento, essa pergunta não poderia ser mais dura e mais significativa. O relato visceral de Howard Cruse do passado recente dos EUA contribui com graciosidade e força à visão de um mundo justo".

Rodrigo Casarin  https://www.facebook.com/paginacinco